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21 de novembro de 2014

Relato de parto domiciliar da Analu e nascimento do Joaquim

Colocar as primeiras palavras sobre um evento que mudou minha vida totalmente, é emocionante demais. Colocar cada palavra aqui vai ser um misto de alegria e saudade, mas também lembranças tristes e de superação. Vou começar pelo comecinho, quando vi as 2 listras no teste de farmácia e minha vida deu uma guinada de 180 graus. Fiquei radiante ao ver o positivo pois estava saindo de um luto, uma perda de 7 meses. Na verdade engravidei na época que estaria parindo meu outro filho, a emoção bateu forte. Logo fizemos uma ecografia e la estava o embriãozinho de +/- 6 semanas, e tudo estava indo bem. Não sei bem em que momento me perdi... cai em depressão profunda (ai já começavam os ensinamentos que eu tinha que aprender, profundos e transformadores), foram dias tristes, de muito sofrimento e aprendizado, mas por causa do amor da minha família e apoio de amigos, fui conseguindo sair aos poucos dessa. Logo tudo se normalizou, a felicidade e amor imperavam em minha casa.Os manos eram só alegria e entusiasmo, loucos para conhecer o irmão!

Assim que foi possível voltei a praticar Yoga e assim foi quase toda a gestação. A prática me acalmava, me dava equilíbrio e tranquilidade, e me fez adquirir um pouco mais de autoconhecimento. Fui fundamental na minha gestação.


Depois de muito pensar, avaliar as opções que tínhamos, tomamos nossa decisão quanto a equipe. Começamos o pré natal com o obstetra Ricardo Jones e com a enfermeira Neusa Jones, ambos se mostraram muito atenciosos e logo falamos de nossa intensão de realizar o parto em casa. Dados os valores, saímos de lá decididos a levantar este dinheiro. Minha doula já estava eleita desde a gestação anterior, seria minha amiga querida Juliana Pena, a qual temos uma relação muito sincera, verdadeira. 

Cheguei em casa depois da consulta pensando em várias formas de juntar a grana. Comecei a tentar vender meus produtos mais e mais. Tive a ideia da vakinha com doações espontâneas a causa, fiz 2 rifas, tive ajuda de amigas com mais rifas e promoções. Embora com muitas pessoas ajudando, e eu economizando daqui e dali, não teria conseguido a grana sem a ajuda de pessoas mais que especiais e que AGRADEÇO ETERNAMENTE! Vocês moram no meu coração! TODOS que nos auxiliaram de alguma forma são muito especiais para mim!

Em novembro decidi fazer o Chá de Bençãos do Joaquim. Convidei minhas "douladas" queridas e amigas com seus companheiros, além de é claro, minha doula. A energia do dia era maravilhosa, me senti mimada, paparicada e amada por todos. Depois Juliana, minha doula fez um ritualzinho, onde cada pessoa abençoava a mim e ao Kim. Foi emocionante demais. Depois todas as mulheres fizeram um circulo em minha volta, depositando toda energia ancestral. Realmente foi um dia maravilhoso!

Circulo de mulheres

Depois do comecinho difícil, o final foi um pouco angustiante e triste devido meu marido ter ido trabalhar em outra cidade por 3 meses (mesmo ele viajando para casa todos os dias, mal nos falávamos e o estresse era grande, pouco conseguíamos nos conectar), além das reformas que apareceram de última hora e que deveriam ser feitas. E tinha o calor aqui do Sul de 50 graus que tornavam os dias cansativos e desgastantes. Mas vamos lá! Tínhamos que seguir e me obriguei a me acalmar e concentrar na chegada do pequeno, no meio de toda a bagunça. E assim coloquei uma rotina de ouvir musicas que me tocavam a alma, dançar muito, rebolar na bola, ler partos, ver partos, meditar, me recolher em mim mesma, me ouvir... Meu marido e eu fizemos uma aula de Yoga juntos para resgatar nossa intimidade, nossa conexão e foi uma delicia.

Yoga



Nas consultas com Ric e Zeza tudo corria bem e se encaminhava tranquilamente! Com 36 semanas, na Lua Cheia, senti muitas contrações, cheguei a pensar que Joaquim viria ali (até a avisei minha doula e meu obstetra), e meus planos de parir em casa iriam por terra (parto domiciliar a partir de 38 semanas disse meu obstetra, senão seria no hospital), mas não passou de um ensaio do pequeno e tudo se acalmou depois. Quando estava com 39 semanas comecei a sentir contrações novamente. Elas vinham a cada 2 – 1 hora, e as vezes menos. Mas eu tinha colocado na minha cabeça que até resolver tudo, reforma, marido e calor, eu não iria parir. Queria estar segura e tranquila. E assim foi, depois que a reforma acabou, meu marido não precisava mais ir a outra cidade, e o calor tava dando uma trégua (continuava quente, mas já dava pra ficar na rua) as contrações começaram a vir a cada 1 hora, baixando para 30 minutos.

Fazendo um bolinho delicia!

Bê extravasando a ansiedade

Nós!

Fiquei assim por 10 dias, em pródromos, me preparando. Dia 17 de fevereiro, começou a sair o tampão, comemorei!! Fui fazer um bolo com minha filha Sofia, enquanto Bê comemorava no xbox, rs, e depois tirei fotinhos da barriga me despedindo. No dia 18 recebo a notícia da minha doula de que uma amiga minha, Andrea (que também tinha como equipe Zeza, Ric e Ju) estava em trabalho de parto! Eu vibrei de alegria por ela, tínhamos DPPs perto e tínhamos medo de entrar juntas em trabalho de parto, mas o Universo trabalha por meios incríveis, é sábio!

O tampão...

Dia 19 pela manhã saiu o resto do tampão, e eu fiquei aguardando, ansiosa, notícias da Andrea, como ela estava, se já havia parido. Meu cachorro Marley ficou grudado em mim o tempo todo, sabendo o que viria. E neste mesmo dia, na hora do nosso cafezão noturno, as contrações que já estavam a cada 30 minutos, diminuíram de intervalo e ficaram mais doloridas. Então, Ju me avisou por mensagem que Andréa havia parido e que estava indo para casa descansar, e que se mudasse algo que eu a avisasse. Parecia que era só isso que faltava para Joaquim decidir vir de uma vez. Sincronia perfeita! 

Cada contração vinha dolorida e o intervalo estava entre 20- 15 minutos, as vezes menos. Fiquei com pena de avisar minha doula que arressem havia chegado em casa, mas meu marido pensou que fosse melhor e avisou. E eu fui tomar um banho demorado e barulhento, vocalizando e me agachando muito. Meus filhos, Bernardo e Sofia, não conseguiam dormir devido os mantras da mamãe, rs, mas depois de um tempinho caíram no sono. Não consigo colocar horários aqui, mas creio que já era perto das 23 hs. Meu marido foi organizando as coisas, arrumando o quarto, inflando a banheira e esquentando a água. Ele estava entusiasmado, e se eu tinha dúvidas que o parto ia engrenar dessa vez, ele tinha certeza!

Meu altar!

Meu cantinho pronto!



 Me lembro de estar no chuveiro quando minha doula chegou. E depois de um tempo sai do chuveiro e fui para o quarto, que estava lindo com rosas vermelhas e a meia luz, a banheira já inflada e meu marido enchendo ela. Me perdi no tempo, me perdi em mim mesma... Cada contração era uma alegria! Poder viver o trabalho de parto na minha casa me deixava em paz, segura! Fui, me soltei, me despi, me entreguei aquele momento como nunca imaginei que conseguiria fazer.  Meu quarto vibrava AMOR e PAZ. Senti a presença de todas mulheres, minhas ancestrais ali, foi mágico, poderoso! Chamava meu filho em vários momentos, me lembro do meu marido em alguns momentos comigo, de mãos dadas, em outros minha doula me massageando, me oferecendo florais, me dando conforto, me lembrando que eu estava muito bem ... 

Apoio, carinho...

Mãos maravilhosas e água relaxante...


Me lembro em um momento que comecei a sentir vontade de fazer cocô, uma pressão e pensei “esta próximo!” ...Viveria mil vezes, mil vezes este momento, tudo igual, sem mudar nada ... Não sei quando, Ricardo e Zeza foram avisados, e ouvi que eles estavam chegando. Pela primeira vez temi, pensei “ e se eu não estivesse tão avançada, e se estivesse no começo ainda, e se eu travasse?”. Neste momento senti que as contrações aumentaram de intensidade, estavam diferentes, mas não tinha me dado conta do porquê.

Ric e Zeza chegam ... 9 cm!                                 

Fui para a banheira, sai da banheira, e nada estava bom. Claro que passou pela cabeça que uma analgesia naquele momento seria uma boa, rs, mas sabia que logo acabaria. Bateu o momento desespero “o que faço? Pra onde corro? Que posição?” e então Ric e Zeza chegam. Falei qualquer coisa do tipo "Ai Zeza, não consigo" ou "não estou aguentando" e ela me encoraja dizendo palavras de apoio. Ric pede para eu deitar , escuta o coraçãozinho do Joaquim (batia vigorosamente) e então ocorre o primeiro e único exame de toque.... 9 cm!!! Um rebordinho só! Por isso a sensação de perdida, por isso as contrações mudaram. Eu estava no expulsivo! Zeza  junto com a Juliana me apoiavam e encorajavam. Soube que Ric estava lá, porque ele as vezes falava algo, se não nem ia me lembrar dele ali, rs (O Homem de Vidro). Mas ele já estava filmando e fotografando tudinho! Fui para a bola, depois sentei na banqueta de parto, e ali percebi que Joaquim estava descendo. As contrações eram muito intensas, mas eu vocalizava, não tinha como não faze-lo. Decidi ir para a piscina e lá fiquei.


Joaquim estava descendo...

Água, ótimo para diminuir o desconforto!

Cada contração era mais um pouco perto do meu filho. Nisso já estávamos com o Sol raiando, trazendo boas novas. Meus filhos acordaram, foram me ver e ficaram quietinhos na sala assistindo TV, aguardando o maninho chegar. E depois de mais ou menos 1 hora, coloco a mão e sinto os cabelos do Kim... Não acreditei, ele realmente estava chegando. Meu marido já estava na piscina me segurando por trás. Juliana ao meu lado segurando minha mão! Aquela mão...como me marcou, como me fortaleceu a energia da Ju naquele momento. Me lembro que em um momento ela soltou minha mão e eu imediatamente a chamei de volta, era como se uma conexão tivesse se desfeito, como se eu recebesse energia através das mãos da minha doula. Foi muito interessante sentir isso. E tenho certeza que nossas ancestrais estavam através dela me dando a energia que tanto precisava!

As contrações que vinham agora eram poderosas, fortes, doloridas, e eu era só um instrumento de passagem do meu bebê, força eu nem fazia, era somente o poder das contrações ali. Senti a cabeça coroando, aos poucos abrindo passagem, a ardência era grande, até que a cabeça saiu... Nem acreditei! Momentos depois mais uma contração poderosa, e pensei “será que eu serei boa mãe para esta criança?” e ai sai o corpinho do Kim com força para a água, direto para as mãos da minha parteira querida. Agarrei minha cria não acreditando que ele estava ali, nos meus braços, dando um chorinho gostoso. A emoção era grande, Bê e Fifi vieram conhecer o maninho, deslumbrados! Escuto meu marido e doula chorando, emocionados. Papai fazia uns carinhos no filhote. E ali na água ficamos um tempinho nos namorando, nos reconhecendo... Meu corpo todo vibrava, era como se eu estivesse em um mundo paralelo, perfeito, ideal! A dúvida se dissipou da minha mente, era para ser assim, para estarmos todos ali, eu era a MÃE daquela criança. Nós teríamos nossas batalhas para enfrentar, mas seria assim, juntos, com Fé e força.

Bebê coroando...
Em meus braços... Meu presentinho!

Perfeito!

Maninhos babando
Depois fui para a cama e a placenta nasceu logo em seguida. Joaquim ficou ainda um tempinho ligado a ela para depois o papai cortar o cordão, que  estava limpinho! Todo sangue estava com seu dono. Agradeci a árvore da vida por ter nutrido meu filho por 41 semanas e 1 dia. Zeza teve que dar uns pontinhos na laceração que tive. Fiquei um pouco chateada, mas depois aceitei. Depois tivemos a deliciosa surpresa, o mocinho havia nascido com 4140 gramas e 53 cm, enorme!!! Kim quis mamar depois de um tempinho e mamou bastante. Então avisamos a vovó Maria que veio correndo ver o neto recém nascido, estava babando e feliz por tudo ter dado certo.

Papai desligando Kim da placenta

Árvore da Vida

Mamando

Vovó corujando
Com tudo calmo Ric e Zeza se despediram e foram atender outro parto. A fome bateu e pedi para Ju fazer uma batida nutritiva para mim, que estava muito gostosa. Joaquim caiu no sono gostoso. Mais tarde Ju também se despede e ficamos nós 5 lá, juntinhos, o amor estava no ar embriagando a todos. Quando me senti capaz fui tomar um banho revigorante e fiquei pensando em tudo que tinha acontecido. Era real, o sonho aconteceu!

Equipe maravilhosa, fundamental!

Juliana, nossa doula amada!

Até hoje, 7 meses depois, me lembro da atmosfera da minha casa, do que senti, do que vivi! Sou grata ao Universo por ter tido a oportunidade de viver um parto pleno, respeitoso e amoroso. Desejo tudo o que vivi a todas as mulheres. Parir é lindo, transformador, embriagante. E tudo que estou vivendo hoje é fruto deste momento, e me foi dada a oportunidade de fazer transformações internas profundas, para me tornar um Ser pleno, mais feliz e mais capaz.

Nossos 3 anjos!
  
AMOR!!!!

Gratidão Roberto por estar ao meu lado, sempre tendo da minha capacidade ancestral de parir, e por me dar tanta segurança neste momento. TE AMO demais!!

Gratidão a minha mãe por me incentivar e apoiar nas dificuldades, e por acreditar na minha minha capacidade e na capacidade de todas as mulheres de parir.

Gratidão aos meus filhotes por estarem comigo na chegada do irmão e me darem tanto amor.

Gratidão a minha doula querida que sempre acreditou que minha capacidade de parir era nata e que meu filho nasceria sim em casa, do jeito que eu sonhava! Gratidão por ser esta ponte de ligação com minhas ancestrais! Te amo minha irmã!

Gratidão a Zeza pelas suas mãos e energia e Ric por ser de vidro me deixando a vontade, vocês foram essenciais para que tudo terminasse com segurança.

Gratidão à todos vocês que me ajudaram a concretizar este sonho, seja com as doações ou com as palavras de apoio e incentivo.

26 de março de 2014

Meu Parto Domiciliar Planejado!

Analu e Joaquim
Com muita alegria, compartilho com vocês do blog um vídeo que montei para mostrar a minha gestação e, o meu tão sonhado parto respeitado e amoroso. Com muito esforço e dedicação conseguimos que o financeiro não fosse um impeditivo para realizar esse sonho. Contamos com vários anjos no caminho que nos estenderam a mão, bem mais do que esperávamos que alguém o fizesse. Agradeço sempre pelo Universo ter colocado vocês no nosso caminho!
Como estou sem tempo ainda para escrever meu relato de parto, resolvi montar um vídeo simples mas que mostrasse a essência deste evento, deste rito de passagem! Curtam e compartilhem!



21 de março de 2013

Como atender um Parto Humanizado - passo a passo


Texto maravilhoso, escrito pela parteira Ana Cris Duarte. Leiam, imprimam e mostrem aos seus obstetras! É simples e é só isso que queremos!!

google imagem

Você, médico ou enfermeira obstetra, está lá de plantão no seu canto. Não aguenta mais aquele papo de quem vai pro paredão do BBB.

Chega a gestante em trabalho de parto. Vamos supor as seguintes condições:
- Fez pré natal e não há nada de anormal 
- Ela está em trabalho de parto (contrações efetivas, 2 a 3 contrações em 10 minutos)

Eis o que fazer:

1) Sorria. Apresente-se com um aperto de mão, diga seu nome e sua função na instituição. Cumprimente o acompanhante. Parabenize-a pela chegada do bebê. Só faça elogios. Não faça críticas, nem piadas. Seja simpático e sorridente, sem ser 'engraçadinho'. E definitivamente essa não é a hora de julgar falta de pré natal, excesso de filhos, de peso ou de pêlos. Nada disso é da sua conta. Lembre-se que você está sendo pago por esse serviço, que aceitou voluntariamente. Lembre-se que, em última instância, são elas que pagam o nosso salário.

2) Deixe-a à vontade e o mais confortável possível, com liberdade de posição, desde essa fase de triagem. Explique que ela pode parar de responder se vier contração. Aguarde as contrações, sempre que vierem, antes de continuar o seu questionário. Pergunte o que precisa, para preencher a ficha da admissão. Ofereça uma camisola da instituição, sem obrigá-la a usar.

3) Peça que aproveite logo após o final de uma contração para se deitar em maca com encosto elevado pelo menos 45º. Diga que tentará ser o mais rápido possível. Instale a cardiotocografia de admissão, explique que é para avaliar os batimentos cardíacos do bebê. Verifique temperatura, pulso e pressão arterial. Tire termômetro e manguito de pressão tão logo termine as medidas. Peça licença para examinar a dilatação. Espere ela concordar. Seja delicado. Use gel lubrificante. Não force o colo. Não tente abrir mais do que já está. Pense em como você gostaria que um profissional examinasse internamente sua esposa, sua irmã, sua filha. Apenas avalie rapidamente, dilatação, esvaecimento, posição e altura. Diga a ela com quantos centímetros ela está de dilatação e dê parabéns, novamente. Diga que ela pode continuar o exame do coração do bebê em qualquer posição, inclusive de pé. Após os 20 minutos necessários, desligue imediatamente o aparelho e, caso esteja tudo bem, informe esse dado. Caso não esteja tudo bem, diga o que o preocupa, e informe que você já vai cuidar disso com a maior rapidez possível.

4) Supondo que ela já esteja com pelo menos 4 cm de dilatação e contrações efetivas, ou seja, na fase ativa do trabalho de parto, instale-a com o acompanhante, de preferência numa sala individual (não coletiva). Mostre onde tem banheiro, água, telefone, local para caminhar, banheiro para o acompanhante, chuveiro, bola, e tudo o que pode ser útil. Se ainda for fase inicial, explique que é complicado internar assim tão precocemente. Incentive-a a voltar pra casa por algumas horas (se for perto) ou a dar um passeio a pé, até as contrações ficarem mais fortes.

5) Não realize lavagem intestinal, nem tricotomia, nem qualquer procedimento de rotina na internação. Não ligue soro com ocitocina. Deixe o trabalho de parto evoluir normalmente. A ocitocina só deve ser utilizada em casos de distócia de progressão. Lembre-se que a ocitocina pode causar anóxia e óbito fetal. Ocitocina não é remédio pra "ajudar". Ocitocina é uma droga potentísssima e perigosa.

6) Não rompa bolsa, a não ser em caso de distócia de progressão ou de sofrimento fetal (para verificação de mecônio). Deixe que a natureza se encarregue disso. Se nada for feito, a bolsa se romperá naturalmente entre 7 e 10 cm de dilatação, ou durante o período expulsivo. Ruptura artificial da bolsa das água é o maior fator de risco para prolapso de cordão.

7) Examine apenas o necessário. Tirando a ausculta fetal, que é fundamental para sabermos a vitalidade do bebê, não  há porque ficar fazendo toques vaginais de hora em hora. Na fase ativa, podem haver intervalos de até 4 horas entre um toque e outro. Não deixe que mais de um profissional realize o toque. Peça licença. Pergunte se ela prefere que seu acompanhante permaneça ou saia durante o exame. Não assuma que você sabe como ela se sente, nunca! Sempre elogie o progresso, e como ela é forte, e como ela está lidando bem com o trabalho de parto. Se a bolsa estiver rompida, especial cuidado! O parto pode demorar quantas horas for necessário com a bolsa rompida, mas os exames de toque aumentam o risco de infecção.

8) Se for realizar cardiotocografia, não deixe o aparelho ligado por mais de 20 minutos, explique que o alarme não significa problemas, que em geral é porque houve perda do foco pelo aparelho, desligue imediatamente logo após terminado, e dê liberdade de posição durante o exame. Não é necessário que a mulher esteja deitada.

9) Incentive a mudança de posição, deambulação, banho de chuveiro e banheira, uso da bola, descanso em diferentes posições. Não é necessário seguir um circuito pré estabelecido. Explique apenas que ela não está doente e que deve confiar em seu corpo. Explique sobre a importância de não ficar numa só posição o tempo todo. Mostre técnicas de massagem para o acompanhante. Incentive o uso do chuveiro para alívio da dor. Ofereça sucos, água e alimentos.

10) Conforme chegar mais perto do expulsivo, explique os sintomas e peça ao acompanhante que chame caso um desses sintomas seja referido. Não faça dilatação manual do colo, pois esse é o maior fator de risco para laceração de trajeto. Aguarde a evolução natural. Não coloque a mulher "em posição". Dê liberdade durante o período expulsivo. Dê preferência a posições verticais, como a banqueta de parto, por exemplo. Não é necessário realizar antissepsia dos genitais.

11) Deixe a mulher fazer força conforme sente vontade, não fique guiando, gritando ordens ou pedindo que ela prenda a respiração e faça força comprida. Deixe que ela sabe o que fazer. Bebês nascidos sob manobra de Valsalva têm notas de Apgar em média menores do que os nascidos sob puxos espontâneos. Não fique colocando os dedos na vagina dela para "alargar" o canal. A vagina é tecido mole, não segura o bebê. Se for possível abaixe a luz, deixe alguma música (se ela gostar da idéia), fale baixo. Evite falar, na verdade. Faça apenas a ausculta a cada 10-15 minutos. Lembre-se que desacelerações durante a contração são normais, ainda mais no período expulsivo.

12) Dê tempo ao tempo, lembre-se que o período expulsivo de uma primigesta pode levar até 2 horas, às vezes até mais, desde que esteja havendo progresso e a ausculta esteja boa. Quando o bebê estiver coroando, convide a mulher a sentir a cabeça do bebê com a mão, e assim controlar a força e a expulsão. Proteja o períneo com uma compressa. Não empurre o fundo uterino, nem com a mão, muito menos com o cotovelo. A Manobra de Kristeler pode provocar lesão de fígado, de baço, ruptura uterina, descolamento de placenta, fratura de costela e hematomas, entre outros problemas.

13) Dê tempo para a cabeça subir e descer várias vezes, alongando o períneo. Isso evitará laceração. Não corte episiotomia, por favor. O maior risco de laceração de quarto grau ocorre quando se abre uma episiotomia. Lacerações em geral são pequenas, a maioria nem sutura necessita. Cerca de 70% das mulheres saem com períneo intacto.

14) Após a saída da cabeça, não puxe o bebê. Deixe que a próxima contração traga o resto do corpo. Isso pode levar 5 minutos. Lembre-se que o bebê está sendo oxigenado pelo cordão. O bebê pode nascer sozinho apenas com as contrações uterinas. Receba o bebê com delicadeza, enxugue-o delicadamente, sem esfregar. Sinta a pulsação do cordão, se estiver acima de 100, o bebê está bem. Ainda ligado ao cordão, coloque o bebê em contato pele a pele com a mãe e cubra-o, para prevenir a perda de calor. Não corte o cordão. Espere que ele pare de pulsar. Cerca de 1/3 do volume de sangue do bebê está no cordão e placenta. Deixe que esse sangue vá para o bebê.

15) Com a mãe ainda segurando seu bebê no colo, aguarde a placenta sem tracionar. Verifique apenas que o útero esteja contraído. Isso pode te dar a segurança que você precisa para deixar a natureza cuidar da placenta sem intervenções. Se houve fator de risco para hemorragia pós parto, aplique ocitocina intra-muscular e aguarde.

16) Se for necessário suturar, faça-o com anestesia suficiente para que a mãe não sinta dor. Se ela disser que está doendo, acredite: está doendo. A dor faz aumentar a adrenalina, diminuindo a produção de ocitocina: pior para o aleitamento, pior para a hemorragia pós parto. A amamentação na primeira hora de vida é prioridade e é a melhor forma de prevenir a hemorragia.

17) Após a primeira mamada e o cordão já cortado, pergunte se o pediatra pode examinar. Se possível o exame deve ser feito na própria sala de parto. Se não for possível, peça ao pai para acompanhar o exame. Enxugue melhor o bebê, com delicadeza. Corrija o corte do cordão, se necessário. Não aspire um bebê que respira. Pingue o colírio de escolha, de preferência abandone o nitrato de prata, menos efetivo, cáustico e doloroso. Substitua por antibiótico ocular. Deixe vacinas e vitamina K para as horas seguintes ao parto. Pese e identique o bebê. Devolva o bebê para a mãe imediatamente após o exame e diga a ela os dados relevantes.

18) Leve mãe, bebê e acompanhante para o quarto, na mesma maca, e favoreça o alojamento conjunto.

19) Da série "Um plus a mais": obstetrizes/enfermeiras obstetras para todas as mulheres; doulas voluntárias e permissão de entrada da doula contratada pela mulher, analgesia peridural para mulheres que esgotaram todas formas alternativas e não farmacológicas de controle da dor do parto; quartos com ambientação agradável; banheira para relaxamento e para o parto na água (aguarde nota sobre como atender um parto na água); uso de vácuo no lugar de fórceps sempre que possível (e necessário, claro).

20) Da série "Nunca é tarde pra lembrar": residentes e estudantes estão lá para aprender SE e QUANDO a mulher permitir. Mulheres e bebês não são cobaias. Parto não pode ter platéia. Não é humano colocar 6 estudantes observando a vagina de uma mulher. Nâo é humano colocar 6 estudantes e residentes para meter seus dedos nervosos em vaginas de mulheres com dor, assustadas e embaraçadas. Por favor, tome cuidado com a presença dos estudantes e sempre peça permissão à mulher. Sempre!

Por incrível que pareça, essas atitudes são o que chamamos de "Parto Humanizado". Para quem achava que parto humanizado envolvia o canto de mantras, a degustação da placenta e todos pelados na banheira, talvez seja uma decepção. Para quem milita pelo direito a um parto tranquilo para todas as mulheres, do SUS ou do sistema privado, é um grande alívio.

Imprima esse texto e entregue isso ao seu obstetra ou ao hospital público onde vai ter o seu bebê. Explique que é apenas isso que você deseja para seu parto.

Disponibilizado aqui